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Quem somos, quem nos tornamos

9 de Outubro, 2026

Uma parede com muitas máscaras japonesas coloridas.
Por Hidefumi Ohmichi (https://unsplash.com/@hidefu)

Trabalhar por muitos anos no mesmo lugar tem seus benefícios. Sabemos como as coisas funcionam, nos habituamos às pessoas com quem interagimos diariamente e entramos no mesmo ritmo, na maioria das vezes. Nos mimetizamos, por vezes naturalmente, mas nem sempre de forma confortável.

Cada empresa tem seus valores e seus objetivos, basicamente atrelados à receita e ao lucro. Individualmente, também temos nossos próprios valores, nossos objetivos profissionais e nossos sonhos pessoais. Esse choque de valores pode ser bom quando nos identificamos com o que a empresa constrói e como faz isso, mas também pode exigir adaptações ou nem funcionar de fato.

O autoconhecimento passa a ser seu melhor amigo. Você percebe que mudou para se encaixar e acabou deixando gostos e características suas de lado. Aprendeu a escolher suas batalhas, a medir as palavras, a entender o que pode ou não ser dito e a reconhecer as regras não escritas do ambiente. Afinal, existe o trabalho que sabemos fazer e existe o jogo que precisamos aprender a jogar. Quanto mais tempo passamos nesse ambiente, mais naturais esses comportamentos passam a nos parecer.

O problema é quando já não sabemos distinguir o que fazemos porque acreditamos naquilo e o que fazemos porque aprendemos que é assim que as coisas funcionam. Quando a adaptação deixa de ser uma escolha consciente e passa a ser uma reação automática. Quando a criatividade dá lugar ao que é mais seguro, a curiosidade é substituída pelo que precisa ser entregue e os interesses que não cabem na rotina profissional vão ficando para depois. Não porque deixaram de ser importantes, mas porque sempre aparece algo mais urgente.

Depois de tantos anos, sair desse contexto também significa se desvincular de uma identidade que construímos nele. Passei por esse processo uma vez e vivenciei a complexidade de me desconectar daquele CNPJ e da persona que construí nele. Reconectar com partes importantes de mim, como a criatividade e a curiosidade, exigiu perceber que elas não tinham desaparecido. Talvez só estivessem esperando espaço para existir novamente. Tive o privilégio de contar com meus momentos de terapia para isso, o que me permitiu enxergar muito da minha essência e entender cada vez mais o que de fato me pertencia e o que foi construído para me adaptar a determinadas circunstâncias.

Não acho que trabalhar por muito tempo no mesmo lugar seja um problema, longe disso. Existem relações, aprendizados e construções que levam anos para amadurecer, e há um valor enorme nisso. Mas talvez valha a pena, de tempos em tempos, perguntar o quanto de nós estamos levando para o trabalho e o quanto estamos deixando pelo caminho para continuar pertencendo a ele. Porque nossa identidade profissional é apenas uma parte de quem somos. Quando um ciclo termina, seria bom que ainda soubéssemos o que fazer com todas as outras facetas de quem somos.